A interdependência e a teia da vida

No artigo passado iniciamos uma reflexão sobre interdependência, princípio que nos reporta ao reconhecimento das relações que mantemos com todos os demais seres com os quais convivemos, quer sejam pessoas, animais ou mesmo nosso planeta. Este princípio, que caracteriza uma lei da Ecologia, considera que todos os seres numa comunidade ecológica estão interligados numa vasta e intrincada rede de relações, a teia da vida. Assim, o comportamento da comunidade como um todo depende do comportamento de cada um de seus membros, e o comportamento de cada membro, por sua vez, depende do comportamento da comunidade como um todo. Basta pensarmos num ser qualquer que se torna presa de outro. Tanto a presa depende do predador para evitar uma superpopulação de sua espécie, quanto o predador depende da presa para obter suprimento de alimentos.

Em nossas vidas não é diferente. Caso seja um empresário, você depende de seus colaboradores. Se for um trabalhador, depende de seu empregador. Como cidadão, depende dos políticos eleitos nas diferentes esferas políticas que, por sua vez, dependem de seu voto para serem eleitos. Nesta dança de relações, quando nos colocamos na posição de seres que dependem de outros, atentamos para uma das implicações da interdependência: O reconhecimento da importância que estes outros têm em nossas vidas, o que, por conseguinte, implica no resgate da humildade, termo que tem origem em humus, do qual também derivam, não por acaso, os termos homem e humanidade. Como humildes humanos, ao reconhecermos o valor dos outros, evocamos nossa gratidão a sua inevitável participação em nossas vidas.

Sob outro ponto de perspectiva, observando nossa importância como alguém de quem outros seres dependem, sobrevém outra importante implicação, que é a responsabilidade que temos em relação aos outros seres. Isso parece mais óbvio nas relações familiares, em que somos responsáveis por filhos, netos ou outros familiares, mas vai além das paredes dos nossos lares. Nossos vizinhos dependem de nós no rateio das despesas condominiais, assim como na conservação e aquisição de patrimônio comum. O comércio local, assim como a fauna e a flora do lugar em que vivemos, dependem dos modos de consumo e descarte que adotamos dentro de nossas casas. Pensar sob esta perspectiva é assumir um papel de cuidador. Cuidado deriva do termo latino coera, do qual também derivam cueiro, manta na qual se envolvem os bebês, e cura. Ambos remetem à responsabilidade de cuidar, tarefa inevitável em nossa participação nesta existência, quer se tenha consciência disso ou não.

Assim, ao reconhecemos nossas relações com o mundo sob a perspectiva da interdependência, somos desafiados a mudar nossos olhares e nossas atitudes diante dessas relações, reconhecendo nossa responsabilidade sobre o que afeta o outro, pois através da interdependência isso também nos afeta. Do mesmo modo, devemos reconhecer e sermos gratos ao outro pelo que ele nos oferece, tornando-nos mais abertos e receptivos às trocas necessárias à vida. Só assim construiremos um mundo e um futuro diferentes para todos e cada um de nós.

(Artigo publicado no Jornal Clicksíndico, edição outubro/2010)

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