No campo ou na cidade?

Eu quero uma casa no campo onde eu possa ficar do tamanho da paz”. Ao cantar esta e outras frases que ecoam em nossas memórias, Elis Regina imortalizou a canção composta por Tavito e Zé Rodrix no início dos anos setenta, intitulada “Casa no Campo”. Quase quarenta anos depois, época em que mais da metade da população mundial vive em ambientes urbanos, esta canção retrata não apenas um anseio, mais um dos possíveis segredos para a promoção de saúde e longevidade humanas.

Viver em cidades pode trazer inúmeros benefícios como, por exemplo, maior empregabilidade, melhores recursos de educação, saúde e saneamento, mas também exige de seus cidadãos maior flexibilidade e capacidade de adaptação ao seu ritmo frenético e ao distanciamento de um modo mais natural de se viver. Sabe-se que o risco de desenvolver transtornos de humor e ansiedade é maior para pessoas que vivem em grandes cidades, as quais também têm mais chances de desenvolver distúrbios de comportamento. Além disso, a incidência de esquizofrenia é quase duas vezes maior em quem vive nas cidades, embora ainda não se conheçam os mecanismos neurológicos que estão por trás dessas associações.

Um recente estudo publicado na revista Nature, conduzido por pesquisadores da Alemanha e do Canadá, indicou que o fato de se viver em ambientes urbanos traz riscos e benefícios à saúde em geral, mas a saúde mental parece ser mais afetada negativamente. Avaliando as atividades cerebrais de voluntários saudáveis de áreas urbanas e rurais da Alemanha por meio de imagens obtidas por ressonância magnética funcional, os pesquisadores observaram que aqueles que viviam em cidades na ocasião do estudo apresentavam maior atividade na amígdala, parte do cérebro que funciona como uma sentinela psicológica, envolvida no controle da emoção e do humor, possivelmente detectando e reagindo de forma mais intensa a eventos estressantes, sendo que os voluntários que cresceram em áreas urbanas tinham maior hiperatividade de outra região cerebral, o córtex cingulado, envolvido na regulação da atividade da amígdala, das emoções negativas e do estresse. Os resultados da pesquisa pela primeira vez ligam o fato de se viver em cidades aos modos de resposta ao estresse, sugerindo que crescer e viver num ambiente urbano pode tornar um indivíduo mais propenso a interpretar diferentes situações como estressantes e a reagir excessivamente e de modo desproporcional em seu cotidiano, por vezes fazendo “tempestade em copo d’água”, como popularmente dizemos.

Mais do que uma tendência, a vida em ambientes urbanos é uma realidade crescente nos países em desenvolvimento, e nossas vidas estão a caminho do que se constatou com esta pesquisa internacional. Resta-nos desenvolver estratégias para melhorar a qualidade de vida em nossa região e resgatar os valores essenciais à vida em qualquer lugar. Como Elis Regina cantaria, em qualquer lugar“onde eu possa plantar meus amigos, meus discos, meus livros e nada mais”.

(Artigo publicado no Jornal JS em 15/07/2011)

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