As rosas e a sabedoria chinesa

 

Em tempos de celebração da 26ª edição da Festas das Rosas, sinto-me convidada a refletir com o leitor sobre algumas sábias lições da natureza evocadas pelas flores que são símbolo da cidade de Sapiranga.

Admiradas por sua beleza e por seu perfume, as rosas estão entre as mais antigas flores cultivadas no mundo, com relatos de que a origem de seu cultivo tenha se dado na China entre 2737 e 2697 A.C. Ao longo da história, têm sido utilizadas como símbolo, ornamento, alimento e medicamento, fazendo parte da história humana. Como uma expressão da natureza, reconectam os seres humanos aos ciclos naturais aos quais todos os seres estão submetidos, desabrochando durante a primavera ou no início do verão.

 Através do surgimento das flores, os sábios da antiga China, atentos observadores da natureza, perceberam que no seu florescimento a natureza traz um ímpeto reprodutivo, que chega ao auge no verão, começa a se contrair e declinar no outono, vindo a se recolher e se resguardar no inverno, completando assim um ciclo anual. Em seguida, nova primavera surge e um novo ciclo se inicia, num constante e infinito movimento evolutivo, essencial para a renovação da vida.

 As estações do ano fazem com que plantas e animais se adaptem dinamicamente às condições de cada momento para que possam viver, crescer e se perpetuar. Adaptam-se às mudanças naturalmente, sem questionar nem resistir. Da mesma forma, o ser humano funciona em ciclos e tende a viver de forma mais saudável e harmoniosa quando procura respeitá-los e se alinhar as suas características, considerando-se que os processos de saúde e doença estão ligados não só à predisposição genética, mas ao estilo de vida e ao comportamento de cada pessoa. Estes são os principais responsáveis pelo bem-estar individual e pelo nível de qualidade de vida de uma comunidade.

 Segundo a Teoria dos Cinco Elementos (Wu Shing, em chinês), a primavera é a estação em que a natureza está plena em sua beleza e a vida parece se manifestar com mais constância e abundância, significando o início de um novo ciclo. É uma época em que a energia se expande, propiciando o florescimento não só das plantas, mas também de sonhos, planos e projetos. É um tempo de movimento, de começos e recomeços, de ver e fazer as mudanças acontecerem.

 Se por um lado nos sentimos convocados pelo calendário – que sinaliza a aproximação de mais um final de ano – a fazermos um balanço sobre nossas vidas, num processo muitas vezes frustrante e angustiante, finalizando ou mesmo abandonando algumas coisas, a sabedoria da natureza nos convida a nos expressarmos simples e naturalmente, colocando nossas capacidades em ação, desabrochando o potencial singular que cada um de nós carrega dentro de si. É hora de aproveitarmos o natural movimento de expansão que caracteriza todos os seres nesta fase primaveril.

 Como dizem os chineses, “sempre a primavera, nunca as mesmas flores”. Se você, leitor, percebeu que não plantou o suficiente nos tempos passados e agora nada parece florescer nem frutificar, ou se percebeu que o que nasce em sua horta não é tanto e nem tão bom quanto poderia ter sido, não desanime. Aproveite para começar a preparar o solo para os próximos tempos. Daqui a um ano, teremos novamente a celebração da Festa das Rosas. Até lá, plante seus sonhos e prepare-se para saborear novos frutos e admirar novas flores.

 

(Artigo publicado no Jornal JS em 13/11/2009)